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quarta-feira, 21 de agosto de 2013

A BÍBLIA

 A BÍBLIA


Olá.

Esta é a primeira publicação -as primeiras palavras, o relato inicial, o primeiro devaneio de muitos que se seguirão.
Demorei alguns dias até finalmente fazer correr este blog. Tal espera não se justifica com preguiça, antes pelo contrário. Não foi fácil encadear os pensamentos que me fazem ferver a alma; conseguir ordená-los de uma forma lógica e concisa, encadeados com a avidez de conhecimento que cada vez mais me assola.

Ainda que por vezes possa falar de assuntos aparentemente separados do contexto geral, a verdade é que os planos que eu tenho para este blog são tudo menos distintos. Tenciono ter um fio condutor, mesmo fazendo jus ao título do mesmo...tentarei ter TA(c?)TO.

Não sei até que ponto pode ser surpreendente para alguns leitores que a génese deste blog seja a bíblia. Contudo, para mim nada faria mais sentido do que principiar com o livro mais vendido do mundo. Se tu que já leste até aqui estás agora inclinado para fechar a página, sossega. O que se seguirá será tudo menos uma tentativa de evangelização.

Tinha eu os meus quinze anos - por volta disso -e já me guiava por um princípio que ainda hoje me acompanha: "não podes criticar o que não conheces, seja essa crítica positiva ou negativa". Naquela altura era muito usual  (é de minha convicção que mais do que hoje, mas posso estar enganado) ser abordado na rua por alguém -geralmente uma senhora de idade avançada - que tentava pregar a sua fé. Munido de livros e revistas, o evangelista apelava ao meu bom senso para me afastar da escuridão. Ora, convém descrever a minha aparência nessa altura: sempre vestido de preto, cabelo até ao fundo das costas e um gárgula ao peito de nome "Jezebel" entre outros "artefactos"... Do ponto de vista da senhora do bem, se havia alguém que precisava de ajuda esse alguém era aquele rapaz de negro, feliz com a vida, sempre alegre, radiante com o seu grupo de amigos, encantado com as meninas e cheio de esperança, planos e sonhos (deu para notar o sarcasmo?) Conseguisse ela converter-me ao seu credo e certamente ganharia um lugar no céu.

Nas primeiras intervenções -divinas ou não, chamemos-lhe assim - eu limitava-me a fazer o que todos fazem: inventar uma desculpa rápida para fugir ao evangelista. No entanto, algo mudou...

Não podes criticar o que não conheces.


Não me recordo de todos os pormenores que me levaram a fazê-lo, mas decidi ler a bíblia, ou melhor, quase toda a bíblia. Li o "antigo testamento" de uma ponta à outra como se estivesse a devorar o novo romance do meu autor preferido. (Parece que estou a imaginar a senhora de idade avançada a exigir os créditos a São Pedro pela sua vitória...) Depois de ler o "antigo testamento", a minha vida mudou: comecei a frequentar a igreja todos os dias, passei a andar com um crucifixo e... hahaha, por momentos enganei-vos.

O "antigo testamento" foi a melhor obra que já li. Sim, agora estou a falar a sério. Não é importante se é verdade o que lá está ou não, mas sim o que transmite, se bem que não precisamos de um livro para distinguir o bem do mal... A história completa de Israel (não, não é esse de 1948...) é fantástica. É um romance que justamente se tornou no livro mais vendido do mundo, ainda que pelas razões erradas. (Note-se que "romance" designa um história, geralmente longa, com vários enredos e personagens -e nada mais do que isso).

(Mais tarde li o "Novo Testamento", ainda que "diagonalmente"...)

O objectivo principal da minha leitura não foi munir-me de argumentos para falar com a(s) senhora(s) evangelista(s). Mau era...aí seria eu que começaria a achar que precisava de ajuda -ainda que profissional. O objectivo principal foi satisfazer a premissa que escolhi como subtítulo deste capítulo. No entanto, como seria esperado, voltei a ter um desses contactos ao ar livre com esses seres munidos de livros e revistas que contém milhares de palavras mas cujos transportadores falam apenas por frases-chavão e/ou parábolas que muitas vezes nem eles próprios entendem. Falo de forma geral, claro, pois quero acreditar que alguns acreditam piamente no que estão a fazer, que estudaram bem a lição e que por isso poderiam proporcionar uma boa e evolutiva conversa. Contudo, eu nunca tive a "sorte" de os encontrar e os robots irritavam-me profundamente...

A conversa que se segue ocorreu nessa fase da minha vida -posterior à leitura do "antigo testamento". O diálogo foi mais ou menos este, repescado dos limites da minha memória:

ELES - Toma! Fica com esta revista! Lê isto todos os dias antes de te deitares e a tua vida irá melhorar.
EU - Não, não quero, mas obrigado.
ELES - Leva! Guardas em casa e pode ser que mudes de ideias. Lês mais tarde!
EU - Mas que posso aprender com isto?
ELES - Podes aprender que Deus é bom!
EU - Mas se Deus é bom, porque estão tantas crianças inocentes a morrer no mundo?

Pausa para uma necessária explicação:
Este meu argumento -apesar de conter alguma verdade - é básico, mas relembro que quem o disse foi um jovem com menos de 20 anos...No entanto, o objectivo aqui era iniciar a discussão. Tive mais do que uma conversa destas, mas nesta conversa específica fui abordado na rua quando me preparava para entrar na casa de um amigo. Ele estava presente e discretamente fazia-me sinais para "não dar conversa"...compreensível. Afinal de contas eu costumava fazer o mesmo.

ELES: "Deus escreve certo por linhas tortas."

Nada mais me irrita(va) do que argumentos destes, desprovidos de lógica, sem desenvolvimento, com o único intuito de encerrar uma discussão com tanto potencial e com corpo para nos desenvolver espiritualmente.

EU: - Está a dizer-me então que aquelas crianças que ainda não pecaram, estão a sofrer para que Deus possa prosseguir com o seu misterioso plano?
ELES (apanhados de surpresa) -  Deus não faz mal a ninguém de propósito. "Insondáveis são os caminhos de Deus".

Sorri.

EU: Deus não faz mal a ninguém de propósito? Então e Sodoma e Gomorra? Não é verdade que a bíblia nos mostra que Deus destruiu as duas cidades carregadas de pecados? Não é verdade que a bíblia descreve Deus como um DEUS invejoso que não tolerava adorações a outros deuses? Aliás, que outros deuses? Então havia mais do que um? Já agora, se Jesus "expulsou os vendilhões do tempo, mas deixou a prostituta ficar", como podemos nós seguir cegamente uma igreja que é banhada a ouro ao mesmo tempo que outros morrem de fome? Como podemos ter procissões se a Bíblia proíbe o "bezerro de ouro"?

Eu estava descontrolado. Disse tudo o que me veio à cabeça e mais alguma coisa, perante a passividade dos que me escutavam e a incredulidade do meu amigo que agora já me puxava sem se preocupar com a descrição. Trocámos algumas palavras mais - eu mais algumas acusações, eles mais algumas "frases feitas" e entrei na casa do meu amigo: uma das verdadeiras casas de Deus...


Hoje olho para trás e arrependo-me deste episódio. Muito.

Será  que aquelas pessoas saíram dali satisfeitas vendo o meu explodir de argumentos como um género de cura espiritual, pois que o primeiro passo para a evolução é questionar? Ou será que partiram com a sua fé abalada colocando em causa a sua própria forma de viver? Quero acreditar na primeira opção. Quero acreditar que um "miúdo" não os abalou...

Hoje, tenho (quase) 37 anos e ainda acredito em praticamente todas as coisas que lhes disse ali. Querem ser guiados pela bíblia, querem acreditar no Deus único que tudo pode e tudo vê? Tudo bem, estão no vosso direito, mas não confundam os ensinamentos desse livro comercial com o que a maior parte das religiões pregam. Se a bíblia é água, as religiões são vinho. Mas então por que motivo me arrependo tanto daquele episódio? Bem, o arrependimento haveria de chegar uns 15 anos mais tarde quando eu, munido de fotos, artigos e muitos argumentos lógicos senti que abalei completamente -agora sim -, a vida de uma senhora que na altura era a dona do restaurante onde eu trabalhava.

Em resumo, a senhora tentou apresentar-me às "sisters" e eu, jovem solteiro e descomprometido não vi problema algum em conhecer aquelas jovens loiras americanas que nos últimos dias reuniam com ela naquele restaurante. Não demorei a aperceber-me do que estava a acontecer: estavam a tentar recrutar-me para "A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos últimos dias", aka, Mormons. Foi-me dito que precisavam de uma pessoa como eu, com capacidade de argumentação. Depois do elogio/técnica de persuasão, foi me oferecido "o livro de mórmon" que rapidamente comecei a ler. Reparem: entrar para a religião sempre esteve fora de questão. Eu estava a ler pelo mesmo motivo que li a bíblia: "não podes criticar o que não conheces". Claro que o segundo motivo era loiro. Infelizmente isto haveria de me trazer problemas(...) Com "isto" refiro-me ao 1ºmotivo: a minha curiosidade natural.

Conseguia perceber a alegria estampada da "chefe" quando me via a ler aquilo. Sim, porque o interesse era tal em que eu acabasse de ler o livro que até me foi permitido estar a ler no bar (eu era barman) nos momentos mortos do restaurante. O "livro de mórmon" é semelhante à bíblia no facto de ser uma colecção de pequenos livros. No entanto, a história de Joseph Smith é de 1830...Bem, este livro não merece muitas linhas, mas digamos que foi fácil desfazer a crença. A minha "melhor amiga" tornava-se de repente na minha maior inimiga. Nunca é inteligente ter como inimigo quem nos paga o ordenado. A relação foi se deteriorando e culminou com despedimento sem justa causa e com advogados pelo meio - os tais problemas -mas isso não interessa para este relato e está longe de ser o motivo para eu ter decidido não voltar a fazer o mesmo. Isto, juntamente com os flashbacks do episódio passado há 15 anos (ou capítulo, já que aquela conversa não foi a única) com os "evangelistas", mudou a minha forma de pensar.

Não voltarei a tentar persuadir alguém de abdicar da sua (cega) fé, pois isso pode ser tudo o que essa pessoa tem na vida. O que antes eu via como algo bom, hoje eu já não vejo. A fé é um conceito ambíguo geralmente associado à religião, o que quanto a mim é errado. Nós vemos fé todos os dias naquele jogador de futebol que consegue marcar o golo crucial para a vitória, naquele alpinista que sobe até onde nunca ninguém subiu, naquele vulgar ser humano que consegue atingir o seu grande objectivo apesar de todas as evidências e obstáculos contra a sua concretização. O combustível dessa fé nem sempre é aquilo a que chamamos Deus. Não importa o nome que lhe decidimos dar: se "Deus", se "anjo", se "força interior", se "obstinação", se "espírito", se "feeling", etc. O que importa é saber que cada um de nós tem o direito de escolher o  "combustível" da sua vida bem como o direito de o nomear como bem entender. E nenhum de nós tem o direito de apagar a chama do vizinho que encontrou ou pensa ter encontrado o fogo certo. 

"Eu tenho muitos nomes"...


















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