acorda!

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segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Ye ra se na ye ma ma nha se na ma chi ma

   Ye ra se na ye ma ma nha se na ma chi ma


   Ontem aconteceu-me algo tão curioso, tão bizarro, que achei por bem vir partilhar tal bizarra curiosidade com o resto do mundo. Não tenho uma explicação plausível para o que vos vou contar a seguir, tampouco a procuro. Resta-me partilhar e esperar que os milhões de pessoas que seguem este meu blog fiquem tão fascinados como eu fiquei. (Nota: neste blog não entra o termo "lol" e o número de emojis permitidos por texto é: 1).

   Sou e sempre serei um activo lucid dreamer. Depois de ter descoberto este mundo não há como o deixar. Este post não é sobre lucid dream e sim sobre um sonho específico, mas depois de tal mencionar não posso deixar de pelo menos explicar o que é isso. Citando-me a mim próprio num grupo facebook que tenho dedicado ao mesmo:
 “Lucid dream” (sonho lúcido) é um sonho no qual te apercebes que estás a sonhar. Essa simples compreensão desperta a tua consciência no sonho, permitindo que faças praticamente tudo. Para o não experiente, o acordar sucede-se imediatamente após o descobrir que está a sonhar. O objectivo do praticante é ficar lúcido no sonho MAS NÃO ACORDAR. Queremos lá continuar, nesse mundo....
   Uma das técnicas para conseguir ficar lúcido nos sonhos é desenvolver a memória dos sonhos e isso é feito criando um diário de sonhos. Todos conhecemos aqueles que dizem que nunca sonham. A maioria de nós - julgo eu- também saberá que isso não é verdade. Sonhamos todas as noites - temos entre 4 a 12 sonhos numa noite "normal" de 8-10 horas de sono -,  o problema é que os esquecemos. Quando conto a amigos que agora chego a escrever 4 sonhos da mesma noite e que já tive algumas noites em que escrevi 8 sonhos completos a sua primeira reacção é de que "tenho jeito para a coisa" e/ou "também gostava de conseguir isso". Não sou especial, não tenho "jeito para a coisa" e sim - também podes conseguir se o quiseres. Lembro-me de sonhos todas as noites e sempre um mínimo de 2 sonhos, mas claro que nem sempre foi assim. Durante muito tempo poderia passar meses sem me lembrar sequer de um sonho. Se hoje os consigo lembrar é porque trabalhei para isso. "Lucid dream" é uma arte como tantas outras que se descobre e pratica. Todos os seres humanos têm acesso a este super poder adormecido. É uma perfeita tragédia que a maior parte de nós deixe esta vida sem sequer ter ouvido falar de tais sonhos quanto mais de os ter experimentado.

   Como disse, este post não é sobre lucid dreams. O que venho aqui contar é relacionado com um dos sonhos que tive esta semana e que acho incrível demais para não partilhar. Comecemos pelo sonho transcrito para aqui exactamente como o escrevi no meu diário de sonhos:



No caso de não conseguires ler da imagem, aqui está o sonho:

"Estou a ouvir uma voz a contar a história. O que oiço lembra-me as mitologias gregas e romanas acerca dos antigos deuses que todos muito ou pouco conhecemos. São me mostrados os nomes de ventos e de como foram criados. Vejo com se estivesse a olhar para um ecrã. A imagem agora aponta para o nome do vento final. Vejo árvores que se destacam numa densa floresta. E agora vejo duas portas. Abro os olhos novamente, da cama onde estou deitado (!) e agora vejo as duas portas fechadas lado a lado. Vejo as letras a aparecer sílaba a sílaba sobrepostas nas portas enquanto oiço a voz falar os nomes desse vento final: “Ye ra se na ye ma ma nha se na ma chi ma”. Não sei por qual ordem, talvez ao mesmo tempo, abro os olhos – acordo – enquanto estou a pensar que isto é um pouco assustador pois parecem nomes demoníacos ou algo do género. Um ligeiro terror apodera-se de mim, terror esse que comigo já acordado aumenta de intensidade enquanto o meu dedo tecla os "nomes" que tão bem me lembro."

  
O que dizer deste sonho?
   Não tenho por hábito perder muito tempo na interpretação do sonho. E já agora, sabes aquela história das interpretações universais, que o mesmo símbolo no sonho significa o mesmo para todas as pessoas, etc? É treta. Fica para outro dia... Contudo, este sonho tenho de o interpretar de forma a que o leitor me acompanhe o raciocínio.

  1. Mitologia grega e romana
    Interessante, não é? Sim, mas talvez haja uma explicação para a coisa...Tenho estado a jogar um jogo épico ("God of War") e quem conhece este(s) jogo(s) sabe bem que tudo gira à volta de Zeus e seus "amigos". É bem normal que isto influencie os meus presentes sonhos. Mesmo assim, tal história de ventos e seus nomes, portas em floresta, etc., não existem no jogo. Isto é sim parte da criação da nossa mente e que já não é surpresa para mim. É a coisa mais fantástica dos sonhos.
  2. Medos
    Por quê? O tema do sonho parece tender para o assustador e mesmo já acordado eu associo tais palavras com demónios. Novamente, a explicação parece ser óbvia: fui dormir assustado. Sobre isto posso deixar um conselho: quando tiverem algum problema de saúde não usem o google. Antes do google tinha dores de pescoço e braço; depois do google fui dormir com a possibilidade em mente de poder morrer (nota: muito haveria a dizer em relação ao primeiro minuto depois de abrir os olhos - em todos os seres humanos - , mas este post não é sobre isso).
   Depois disto explicado sobra-nos o mais interessante e enigmático deste sonho: " Ye ra se na ye ma ma nha se na ma chi ma". Juro por tudo o quanto me é sagrado que foi exactamente isto que sonhei. Eu via as sílabas à minha frente, como se estivesse a olhar para um ecrã, enquanto a voz as repetia num monocórdico tom. Quando acordei, ainda naquele estado de "transe" próprio de quando se acorda, e ainda deitado, apressei-me a escrevê-las no telemóvel antes que me esquecesse. Só depois escrevi o resto do sonho. Eu parecia que ainda ouvia a voz que, já agora, não era nada assustadora, não era nada por aí. Aliás, no sonho eu estava calmo num passivo estatuto de observador. Só acordado, a minha "parva" mente associou isto com demónios.

   O Google pode não ser um bom médico mas para isto serve. Foi exactamente o que fiz. Estes são os primeiros resultados que me aparecem (nota: "google" é realmente uma forma de falar. Eu não uso google mas sim outro motor de pesquisa de nome "duck duck go". Trackings e manipulações não quero, mas obrigado pela oferta, google.):




   Nenhum resultado directo, mas achei piada àquele para onde a seta aponta: "The great Compassion Mantra" ("o mantra da grande compaixão"). É um pdf de 131 páginas onde se pode ler:

"The great Compassion Mantra is a dharani to be recited for purification, protection and healing".
    Portanto, é um mantra gigante que deve ser recitado para obter purificação, protecção e cura. Desculpem-me os mais crentes e/ou conhecedores de tal mantra (do qual nunca tinha ouvido falar) mas a minha primeira reacção foi: "meh..."
   Tem também algumas referências a demónios ("nothing to see here, move along") e através destas simpáticas palavras e nada assustadoras diz também que podes acordar o teu estado divino:

If you recite it 108 times every day for a
thousand days, then the ten kings who are
directors in the hells in
the courts of Yama are delighted"
[Se você recitar 108 vezes todos os dias durante
     mil dias, então os dez Reis que são
     directores nos infernos nos
    
tribunais de Yama estão encantados "]



    A título de curiosidade, "só" terias de ler todo o texto (131 páginas) 12 vezes por dia por aproximadamente 3 anos seguidos. Coisa pouca.

   Pronto, pesquisa feita, foi giro e tal mas nada de concreto...foi então que tive uma ideia: e que tal colocar num tradutor estas "palavras" estranhas do sonho? Aqui sim usei mesmo o google ("mas então e o tracking e tal?..." - xiu!) pois lembrei-me que o "google tradutor" detecta automaticamente a língua. Será que dá algum resultado decente? Seria bem engraçado descobrir que estes monossílabos nesta ordem pudessem significar algo. O que vim a descobrir é o principal motivo para a criação deste texto neste blog. Sem esta descoberta, este teria sido apenas mais um dos meus muitos estranhos sonhos e que ficaria guardado e devidamente catalogado para ser mostrado apenas a alguns amigos. Consigo explicar isto que vão ver agora? Não, não consigo, mas acho fascinante.



😦

   Lembrei-me também de tentar traduzir para Inglês para ver se o resultado era consistente e não aleatório.

Idioma detectado: Havaiano. Ahahaha!
Segundo o wikipedia:
 "O alfabeto havaiano, chamado ka pī‘āpā Hawai‘i em havaiano, é uma variação do alfabeto latino criada no século XIX e usada para escrever na língua havaiana. Compõe-se de 12 letras e um símbolo, o que o torna um dos alfabetos mais curtos do mundo."

   Também segundo o Wikipedia, a língua tem apenas 24 000 falantes.

   Por quê?! Como fui sonhar com isto? Como sei isto? Como sabe o meu subconsciente isto? Tenho algumas possíveis explicações, ou melhor, "especulações", sendo algumas mais "malucas" do que outras...Não tenciono perder muito tempo a pensar nisso, pois seria mesmo isso - perder tempo -, mas acho este acontecimento fascinante. E depois, sei lá se o google está a traduzir isto correctamente. Seja como for, para dar como resultado uma frase composta, alguma lógica devem ter os monossílabos nesta ordem, não é?
A viagem continua...

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Caixinha mágica

 Caixinha mágica

Às vezes perguntam-me por que raios nunca mais voltei a escrever neste blog, por que raios me deixei ficar por apenas um post; apontam-me o dedo e dizem-me "ESCREVE"! Ora bem, a minha resposta só pode ser uma: "Não mandas em mim!" Poderia dizer que a verdadeira culpada é a procrastinação mas prefiro desviar o assunto para o atacante e não para a mensagem - não é afinal o que todos nós fazemos quando algo nos corre menos bem? A culpa é sempre de algo ou dos outros, nunca nossa. Assim sendo, vou escrever sobre uma caixinha mágica que praticamente todos nós temos ou tivemos em casa - culpa vossa!
"À hora do jantar é para ver o telejornal!" - esta era uma frase que eu ouvia do meu pai. Não importa se estivéssemos a meio de um filme, de um concerto ou do tv rural. É hora de jantar, a televisão tem de estar nas notícias - aquela pessoa simpática do lado de lá tem verdades para nos contar e não há nada mais importante do que a verdade. Quando era mais novo, eu e os meus irmãos lá encolhíamos os ombros por termos de gramar com a porcaria do telejornal mas nunca tinha parado para pensar a fundo na questão. Com o tempo, tornei-me adulto (sim, eu sou adulto) e aquele conceito de "ter de estar informado" nunca deixou de ter a sua lógica. Chegou a uma altura que até eu achava inconcebível não ver o telejornal ou pelo menos não chegar ao café e "passar os olhos pelas gordas". No entanto, virar adulto não significava (nem significa) virar uma fonte de iluminação e, como mais tarde me viria a aperceber, este conceito de informação era algo que muito tinha para ser explorado.

Ser explorado
Proponho ao leitor que acompanhe este meu pequeno exercício mental. Não se tem a presunção de construir aqui uma tese de um qualquer mestrado, apenas se quer diversão (e fazer pensar). Quantos países existem no mundo? Existem entre 193 a 206 países, dependendo de quem o diz (...) De quantos ouve falar no telejornal? Eu diria que nunca ouviu falar de uns 50% deles durante toda a sua vida de telejornais. Poderá argumentar que o planeta é muito grande e o telejornal só tem uma hora de duração e que assim sendo só cobrem as principais notícias, mas tal possível argumento será desconstruído da seguinte forma:
1 - O telejornal pode demorar um hora, mas
      a) O mesmo é transmitido pelo menos duas vezes por dia, sendo que a edição da noite é uma edição-papagaio, uma pura repetição do que deram de dia com uma ou outra excepção tal como "fulana diz que está feliz com estes primeiros dias de maternidade" ou "ministro encomenda pizza para jantar" - coisas chamadas de "notícias" que tanto enriquecem a nossa vida;
     b) Existem canais SÓ de notícias, por isso tenho quase a certeza que daria tempo para cobrir todos os países do mundo e ainda sobraria tempo suficiente para assustar o povo sobre o GRANDE TEMPORAL que aí vem, só que não - não vem.

2 - República do Kiribati é um país no senhor rabo do judas, algures no centro do oceano pacífico. Tem, segundo dados de 2013, 102.351 pessoas. Nos últimos, vá, 10 anos, nada aconteceu por lá digno de registo? Será que não? Nem uma pessoa sequer a fazer caretas na televisão pública? Um gatinho a invadir um estúdio, uma apresentadora que tenha perdido a cabeça e que decidiu mostrou o joelho na televisão, sei lá... Um país com pouca gente também poder ter factos interessantes e dignos de registo. Por exemplo, um país chamado Niue:
(fonte da imagem: "http://www.megacurioso.com.br/bizarro/70101-10-fatos-doidos-sobre-paises-pouco-conhecidos-no-mundo.htm" ) Lembrem-se que nem todos os Donald são racistas, xenófobos e misóginos, embora quase todos sejam patos. E depois, sempre é mais interessante este facto do que duas horas de transmissão de uma porta que supostamente esconde um ex-ministro à espera de uma pizza, não é verdade?

3 - Por fim, mas mais importante: quem cedeu o direito à caixinha mágica de decidir sobre que países devemos ser informados? Quem cedeu à caixinha mágica o infame direito de decidir por quem vamos chorar? Vamos ficar tristes por este atentado no país vizinho que vitimou "meia dúzia" de pessoas, mas vamos ficar distantes e desinteressados (ou nem vamos saber que aconteceu) em relação ao atentado do país "estranho" que vitimou centenas? Somos insensíveis se não chorarmos? E será que não é precisamente o contrário que está a acontecer quando somos expostos à televisão, mais propriamente às notícias que pouco ou nada de verdade têm? Será que não estamos a ser vítimas de um elaborado e contínuo programa de dessensibilização? E se sim, com que objectivo?

A arte da manipulação
Concorde-se ou não com a opinião deste autor de que os principais media já não são - na sua grande parte - informação fidedigna, mas sim um elaborado plano de lavagem cerebral, existe um facto que não pode ser negado: o telejornal de hoje em dia é um autêntico filme de terror. Digo sem ironias, que deveria mesmo ter a bolinha vermelha no canto superior direito. As pessoas estão a jantar com as suas crianças e estão a ver cadáveres de um diário desastre - pois sempre os há e haverá. As consequências disto para o futuro adulto são incomensuráveis. O frio, feio e doloroso torna-se banal, aceitável, rotineiro... É tão triste que vocês pais não percebam que NÃO, não é normal que os vossos filhos pequenos estejam a ver aquilo. Também não é normal que vocês continuem a insistir em ver aquilo religiosamente, mas mais grave será para eles...
Há uns anos li um artigo escrito por um psicólogo sobre o efeito-consequência das televisões na nossa vida e nunca mais esqueci. Deixei de ser um "regular da tv" há uns 8 anos, mas deixei a missa-mentira-telejornal há muito mais tempo. Quando vemos o horror no telejornal, sentimo-nos tristes, desolados. Vemos aquelas pessoas vítimas de uma grande tragédia e sentimo-nos impotentes sem nada poder fazer. O cérebro humano é algo complexo. Nesta altura, muitas vezes a pessoa sente-se - ainda que inconscientemente - com remorsos, por nada poder fazer por aquelas pessoas. Então, chega o intervalo do telejornal e com ele vem um bombardeamento de publicidade: "compre isto, compre aquilo, venha com a sua família, seus filhos vão adorar" blá blá blá". E nós vamos a correr. É como o nosso cérebro nos tivesse a dizer "deixa lá, não podes ajudar aquelas famílias cuja casa explodiu, então vai para o shopping divertir-te (aka, "gastar dinheiro"). Isto é um ciclo vicioso ao qual o escravo da caixinha mágica não consegue escapar. Que ninguém tenha dúvidas que o estado do mundo - o ódio patente a cada esquina - é - não só mas também - resultado da assistência religiosa ao telejornal. Lembro-me de um estudo que dava conta de que um grande número de Portugueses responde "boa noite" ao pivot do telejornal. Acho que isto diz muito do estado de escravidão em que nos encontramos. Poderíamos ainda falar do campo emocional e da forma que o mesmo é afectado na suposta sagrada hora da refeição quando confrontados com imagens e sons violentos, mas o artigo já vai longo...
Acontecem "mil" coisas no mundo, a todos os minutos, todos os dias. Não é porque não podem ser apresentadas ao público que o telejornal não as mostra, mas sim porque não interessa que sejam apresentadas ao público. Dessas "mil" coisas de que falo nem todas são más, nem todas são violentas e/ou conspiratórias e/ou manipuladoras. Algumas são bem interessantes e capazes de chamar a atenção até ao mais preguiçoso mental (talvez um futuro post). Contudo, a grande tragédia do ser humano é permitir que o enclausurem mentalmente, limitando-o a um tão pequeno mundo, quando o mundo é tão grande, tão fascinante, tão atractivo, tão, tão, tão mais do que a tv nos mostra...

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

A BÍBLIA

 A BÍBLIA


Olá.

Esta é a primeira publicação -as primeiras palavras, o relato inicial, o primeiro devaneio de muitos que se seguirão.
Demorei alguns dias até finalmente fazer correr este blog. Tal espera não se justifica com preguiça, antes pelo contrário. Não foi fácil encadear os pensamentos que me fazem ferver a alma; conseguir ordená-los de uma forma lógica e concisa, encadeados com a avidez de conhecimento que cada vez mais me assola.

Ainda que por vezes possa falar de assuntos aparentemente separados do contexto geral, a verdade é que os planos que eu tenho para este blog são tudo menos distintos. Tenciono ter um fio condutor, mesmo fazendo jus ao título do mesmo...tentarei ter TA(c?)TO.

Não sei até que ponto pode ser surpreendente para alguns leitores que a génese deste blog seja a bíblia. Contudo, para mim nada faria mais sentido do que principiar com o livro mais vendido do mundo. Se tu que já leste até aqui estás agora inclinado para fechar a página, sossega. O que se seguirá será tudo menos uma tentativa de evangelização.

Tinha eu os meus quinze anos - por volta disso -e já me guiava por um princípio que ainda hoje me acompanha: "não podes criticar o que não conheces, seja essa crítica positiva ou negativa". Naquela altura era muito usual  (é de minha convicção que mais do que hoje, mas posso estar enganado) ser abordado na rua por alguém -geralmente uma senhora de idade avançada - que tentava pregar a sua fé. Munido de livros e revistas, o evangelista apelava ao meu bom senso para me afastar da escuridão. Ora, convém descrever a minha aparência nessa altura: sempre vestido de preto, cabelo até ao fundo das costas e um gárgula ao peito de nome "Jezebel" entre outros "artefactos"... Do ponto de vista da senhora do bem, se havia alguém que precisava de ajuda esse alguém era aquele rapaz de negro, feliz com a vida, sempre alegre, radiante com o seu grupo de amigos, encantado com as meninas e cheio de esperança, planos e sonhos (deu para notar o sarcasmo?) Conseguisse ela converter-me ao seu credo e certamente ganharia um lugar no céu.

Nas primeiras intervenções -divinas ou não, chamemos-lhe assim - eu limitava-me a fazer o que todos fazem: inventar uma desculpa rápida para fugir ao evangelista. No entanto, algo mudou...

Não podes criticar o que não conheces.


Não me recordo de todos os pormenores que me levaram a fazê-lo, mas decidi ler a bíblia, ou melhor, quase toda a bíblia. Li o "antigo testamento" de uma ponta à outra como se estivesse a devorar o novo romance do meu autor preferido. (Parece que estou a imaginar a senhora de idade avançada a exigir os créditos a São Pedro pela sua vitória...) Depois de ler o "antigo testamento", a minha vida mudou: comecei a frequentar a igreja todos os dias, passei a andar com um crucifixo e... hahaha, por momentos enganei-vos.

O "antigo testamento" foi a melhor obra que já li. Sim, agora estou a falar a sério. Não é importante se é verdade o que lá está ou não, mas sim o que transmite, se bem que não precisamos de um livro para distinguir o bem do mal... A história completa de Israel (não, não é esse de 1948...) é fantástica. É um romance que justamente se tornou no livro mais vendido do mundo, ainda que pelas razões erradas. (Note-se que "romance" designa um história, geralmente longa, com vários enredos e personagens -e nada mais do que isso).

(Mais tarde li o "Novo Testamento", ainda que "diagonalmente"...)

O objectivo principal da minha leitura não foi munir-me de argumentos para falar com a(s) senhora(s) evangelista(s). Mau era...aí seria eu que começaria a achar que precisava de ajuda -ainda que profissional. O objectivo principal foi satisfazer a premissa que escolhi como subtítulo deste capítulo. No entanto, como seria esperado, voltei a ter um desses contactos ao ar livre com esses seres munidos de livros e revistas que contém milhares de palavras mas cujos transportadores falam apenas por frases-chavão e/ou parábolas que muitas vezes nem eles próprios entendem. Falo de forma geral, claro, pois quero acreditar que alguns acreditam piamente no que estão a fazer, que estudaram bem a lição e que por isso poderiam proporcionar uma boa e evolutiva conversa. Contudo, eu nunca tive a "sorte" de os encontrar e os robots irritavam-me profundamente...

A conversa que se segue ocorreu nessa fase da minha vida -posterior à leitura do "antigo testamento". O diálogo foi mais ou menos este, repescado dos limites da minha memória:

ELES - Toma! Fica com esta revista! Lê isto todos os dias antes de te deitares e a tua vida irá melhorar.
EU - Não, não quero, mas obrigado.
ELES - Leva! Guardas em casa e pode ser que mudes de ideias. Lês mais tarde!
EU - Mas que posso aprender com isto?
ELES - Podes aprender que Deus é bom!
EU - Mas se Deus é bom, porque estão tantas crianças inocentes a morrer no mundo?

Pausa para uma necessária explicação:
Este meu argumento -apesar de conter alguma verdade - é básico, mas relembro que quem o disse foi um jovem com menos de 20 anos...No entanto, o objectivo aqui era iniciar a discussão. Tive mais do que uma conversa destas, mas nesta conversa específica fui abordado na rua quando me preparava para entrar na casa de um amigo. Ele estava presente e discretamente fazia-me sinais para "não dar conversa"...compreensível. Afinal de contas eu costumava fazer o mesmo.

ELES: "Deus escreve certo por linhas tortas."

Nada mais me irrita(va) do que argumentos destes, desprovidos de lógica, sem desenvolvimento, com o único intuito de encerrar uma discussão com tanto potencial e com corpo para nos desenvolver espiritualmente.

EU: - Está a dizer-me então que aquelas crianças que ainda não pecaram, estão a sofrer para que Deus possa prosseguir com o seu misterioso plano?
ELES (apanhados de surpresa) -  Deus não faz mal a ninguém de propósito. "Insondáveis são os caminhos de Deus".

Sorri.

EU: Deus não faz mal a ninguém de propósito? Então e Sodoma e Gomorra? Não é verdade que a bíblia nos mostra que Deus destruiu as duas cidades carregadas de pecados? Não é verdade que a bíblia descreve Deus como um DEUS invejoso que não tolerava adorações a outros deuses? Aliás, que outros deuses? Então havia mais do que um? Já agora, se Jesus "expulsou os vendilhões do tempo, mas deixou a prostituta ficar", como podemos nós seguir cegamente uma igreja que é banhada a ouro ao mesmo tempo que outros morrem de fome? Como podemos ter procissões se a Bíblia proíbe o "bezerro de ouro"?

Eu estava descontrolado. Disse tudo o que me veio à cabeça e mais alguma coisa, perante a passividade dos que me escutavam e a incredulidade do meu amigo que agora já me puxava sem se preocupar com a descrição. Trocámos algumas palavras mais - eu mais algumas acusações, eles mais algumas "frases feitas" e entrei na casa do meu amigo: uma das verdadeiras casas de Deus...


Hoje olho para trás e arrependo-me deste episódio. Muito.

Será  que aquelas pessoas saíram dali satisfeitas vendo o meu explodir de argumentos como um género de cura espiritual, pois que o primeiro passo para a evolução é questionar? Ou será que partiram com a sua fé abalada colocando em causa a sua própria forma de viver? Quero acreditar na primeira opção. Quero acreditar que um "miúdo" não os abalou...

Hoje, tenho (quase) 37 anos e ainda acredito em praticamente todas as coisas que lhes disse ali. Querem ser guiados pela bíblia, querem acreditar no Deus único que tudo pode e tudo vê? Tudo bem, estão no vosso direito, mas não confundam os ensinamentos desse livro comercial com o que a maior parte das religiões pregam. Se a bíblia é água, as religiões são vinho. Mas então por que motivo me arrependo tanto daquele episódio? Bem, o arrependimento haveria de chegar uns 15 anos mais tarde quando eu, munido de fotos, artigos e muitos argumentos lógicos senti que abalei completamente -agora sim -, a vida de uma senhora que na altura era a dona do restaurante onde eu trabalhava.

Em resumo, a senhora tentou apresentar-me às "sisters" e eu, jovem solteiro e descomprometido não vi problema algum em conhecer aquelas jovens loiras americanas que nos últimos dias reuniam com ela naquele restaurante. Não demorei a aperceber-me do que estava a acontecer: estavam a tentar recrutar-me para "A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos últimos dias", aka, Mormons. Foi-me dito que precisavam de uma pessoa como eu, com capacidade de argumentação. Depois do elogio/técnica de persuasão, foi me oferecido "o livro de mórmon" que rapidamente comecei a ler. Reparem: entrar para a religião sempre esteve fora de questão. Eu estava a ler pelo mesmo motivo que li a bíblia: "não podes criticar o que não conheces". Claro que o segundo motivo era loiro. Infelizmente isto haveria de me trazer problemas(...) Com "isto" refiro-me ao 1ºmotivo: a minha curiosidade natural.

Conseguia perceber a alegria estampada da "chefe" quando me via a ler aquilo. Sim, porque o interesse era tal em que eu acabasse de ler o livro que até me foi permitido estar a ler no bar (eu era barman) nos momentos mortos do restaurante. O "livro de mórmon" é semelhante à bíblia no facto de ser uma colecção de pequenos livros. No entanto, a história de Joseph Smith é de 1830...Bem, este livro não merece muitas linhas, mas digamos que foi fácil desfazer a crença. A minha "melhor amiga" tornava-se de repente na minha maior inimiga. Nunca é inteligente ter como inimigo quem nos paga o ordenado. A relação foi se deteriorando e culminou com despedimento sem justa causa e com advogados pelo meio - os tais problemas -mas isso não interessa para este relato e está longe de ser o motivo para eu ter decidido não voltar a fazer o mesmo. Isto, juntamente com os flashbacks do episódio passado há 15 anos (ou capítulo, já que aquela conversa não foi a única) com os "evangelistas", mudou a minha forma de pensar.

Não voltarei a tentar persuadir alguém de abdicar da sua (cega) fé, pois isso pode ser tudo o que essa pessoa tem na vida. O que antes eu via como algo bom, hoje eu já não vejo. A fé é um conceito ambíguo geralmente associado à religião, o que quanto a mim é errado. Nós vemos fé todos os dias naquele jogador de futebol que consegue marcar o golo crucial para a vitória, naquele alpinista que sobe até onde nunca ninguém subiu, naquele vulgar ser humano que consegue atingir o seu grande objectivo apesar de todas as evidências e obstáculos contra a sua concretização. O combustível dessa fé nem sempre é aquilo a que chamamos Deus. Não importa o nome que lhe decidimos dar: se "Deus", se "anjo", se "força interior", se "obstinação", se "espírito", se "feeling", etc. O que importa é saber que cada um de nós tem o direito de escolher o  "combustível" da sua vida bem como o direito de o nomear como bem entender. E nenhum de nós tem o direito de apagar a chama do vizinho que encontrou ou pensa ter encontrado o fogo certo. 

"Eu tenho muitos nomes"...


















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