Caixinha mágica
Às vezes perguntam-me por que raios nunca mais voltei a escrever neste blog, por que raios me deixei ficar por apenas um post; apontam-me o dedo e dizem-me "ESCREVE"! Ora bem, a minha resposta só pode ser uma: "Não mandas em mim!" Poderia dizer que a verdadeira culpada é a procrastinação mas prefiro desviar o assunto para o atacante e não para a mensagem - não é afinal o que todos nós fazemos quando algo nos corre menos bem? A culpa é sempre de algo ou dos outros, nunca nossa. Assim sendo, vou escrever sobre uma caixinha mágica que praticamente todos nós temos ou tivemos em casa - culpa vossa!"À hora do jantar é para ver o telejornal!" - esta era uma frase que eu ouvia do meu pai. Não importa se estivéssemos a meio de um filme, de um concerto ou do tv rural. É hora de jantar, a televisão tem de estar nas notícias - aquela pessoa simpática do lado de lá tem verdades para nos contar e não há nada mais importante do que a verdade. Quando era mais novo, eu e os meus irmãos lá encolhíamos os ombros por termos de gramar com a porcaria do telejornal mas nunca tinha parado para pensar a fundo na questão. Com o tempo, tornei-me adulto (sim, eu sou adulto) e aquele conceito de "ter de estar informado" nunca deixou de ter a sua lógica. Chegou a uma altura que até eu achava inconcebível não ver o telejornal ou pelo menos não chegar ao café e "passar os olhos pelas gordas". No entanto, virar adulto não significava (nem significa) virar uma fonte de iluminação e, como mais tarde me viria a aperceber, este conceito de informação era algo que muito tinha para ser explorado.
Ser explorado
Proponho ao leitor que acompanhe este meu pequeno exercício mental. Não se tem a presunção de construir aqui uma tese de um qualquer mestrado, apenas se quer diversão (e fazer pensar). Quantos países existem no mundo? Existem entre 193 a 206 países, dependendo de quem o diz (...) De quantos ouve falar no telejornal? Eu diria que nunca ouviu falar de uns 50% deles durante toda a sua vida de telejornais. Poderá argumentar que o planeta é muito grande e o telejornal só tem uma hora de duração e que assim sendo só cobrem as principais notícias, mas tal possível argumento será desconstruído da seguinte forma:
1 - O telejornal pode demorar um hora, mas
a) O mesmo é transmitido pelo menos duas vezes por dia, sendo que a edição da noite é uma edição-papagaio, uma pura repetição do que deram de dia com uma ou outra excepção tal como "fulana diz que está feliz com estes primeiros dias de maternidade" ou "ministro encomenda pizza para jantar" - coisas chamadas de "notícias" que tanto enriquecem a nossa vida;
b) Existem canais SÓ de notícias, por isso tenho quase a certeza que daria tempo para cobrir todos os países do mundo e ainda sobraria tempo suficiente para assustar o povo sobre o GRANDE TEMPORAL que aí vem, só que não - não vem.
2 - República do Kiribati é um país no senhor rabo do judas, algures no centro do oceano pacífico. Tem, segundo dados de 2013, 102.351 pessoas. Nos últimos, vá, 10 anos, nada aconteceu por lá digno de registo? Será que não? Nem uma pessoa sequer a fazer caretas na televisão pública? Um gatinho a invadir um estúdio, uma apresentadora que tenha perdido a cabeça e que decidiu mostrou o joelho na televisão, sei lá... Um país com pouca gente também poder ter factos interessantes e dignos de registo. Por exemplo, um país chamado Niue:
(fonte da imagem: "http://www.megacurioso.com.br/bizarro/70101-10-fatos-doidos-sobre-paises-pouco-conhecidos-no-mundo.htm" ) Lembrem-se que nem todos os Donald são racistas, xenófobos e misóginos, embora quase todos sejam patos. E depois, sempre é mais interessante este facto do que duas horas de transmissão de uma porta que supostamente esconde um ex-ministro à espera de uma pizza, não é verdade?
3 - Por fim, mas mais importante: quem cedeu o direito à caixinha mágica de decidir sobre que países devemos ser informados? Quem cedeu à caixinha mágica o infame direito de decidir por quem vamos chorar? Vamos ficar tristes por este atentado no país vizinho que vitimou "meia dúzia" de pessoas, mas vamos ficar distantes e desinteressados (ou nem vamos saber que aconteceu) em relação ao atentado do país "estranho" que vitimou centenas? Somos insensíveis se não chorarmos? E será que não é precisamente o contrário que está a acontecer quando somos expostos à televisão, mais propriamente às notícias que pouco ou nada de verdade têm? Será que não estamos a ser vítimas de um elaborado e contínuo programa de dessensibilização? E se sim, com que objectivo?
A arte da manipulação
Concorde-se ou não com a opinião deste autor de que os principais media já não são - na sua grande parte - informação fidedigna, mas sim um elaborado plano de lavagem cerebral, existe um facto que não pode ser negado: o telejornal de hoje em dia é um autêntico filme de terror. Digo sem ironias, que deveria mesmo ter a bolinha vermelha no canto superior direito. As pessoas estão a jantar com as suas crianças e estão a ver cadáveres de um diário desastre - pois sempre os há e haverá. As consequências disto para o futuro adulto são incomensuráveis. O frio, feio e doloroso torna-se banal, aceitável, rotineiro... É tão triste que vocês pais não percebam que NÃO, não é normal que os vossos filhos pequenos estejam a ver aquilo. Também não é normal que vocês continuem a insistir em ver aquilo religiosamente, mas mais grave será para eles...
Há uns anos li um artigo escrito por um psicólogo sobre o efeito-consequência das televisões na nossa vida e nunca mais esqueci. Deixei de ser um "regular da tv" há uns 8 anos, mas deixei a missa-mentira-telejornal há muito mais tempo. Quando vemos o horror no telejornal, sentimo-nos tristes, desolados. Vemos aquelas pessoas vítimas de uma grande tragédia e sentimo-nos impotentes sem nada poder fazer. O cérebro humano é algo complexo. Nesta altura, muitas vezes a pessoa sente-se - ainda que inconscientemente - com remorsos, por nada poder fazer por aquelas pessoas. Então, chega o intervalo do telejornal e com ele vem um bombardeamento de publicidade: "compre isto, compre aquilo, venha com a sua família, seus filhos vão adorar" blá blá blá". E nós vamos a correr. É como o nosso cérebro nos tivesse a dizer "deixa lá, não podes ajudar aquelas famílias cuja casa explodiu, então vai para o shopping divertir-te (aka, "gastar dinheiro"). Isto é um ciclo vicioso ao qual o escravo da caixinha mágica não consegue escapar. Que ninguém tenha dúvidas que o estado do mundo - o ódio patente a cada esquina - é - não só mas também - resultado da assistência religiosa ao telejornal. Lembro-me de um estudo que dava conta de que um grande número de Portugueses responde "boa noite" ao pivot do telejornal. Acho que isto diz muito do estado de escravidão em que nos encontramos. Poderíamos ainda falar do campo emocional e da forma que o mesmo é afectado na suposta sagrada hora da refeição quando confrontados com imagens e sons violentos, mas o artigo já vai longo...
Acontecem "mil" coisas no mundo, a todos os minutos, todos os dias. Não é porque não podem ser apresentadas ao público que o telejornal não as mostra, mas sim porque não interessa que sejam apresentadas ao público. Dessas "mil" coisas de que falo nem todas são más, nem todas são violentas e/ou conspiratórias e/ou manipuladoras. Algumas são bem interessantes e capazes de chamar a atenção até ao mais preguiçoso mental (talvez um futuro post). Contudo, a grande tragédia do ser humano é permitir que o enclausurem mentalmente, limitando-o a um tão pequeno mundo, quando o mundo é tão grande, tão fascinante, tão atractivo, tão, tão, tão mais do que a tv nos mostra...

Ler "Contudo, a grande tragédia do ser humano é permitir que o enclausurem mentalmente, limitando-o a um tão pequeno mundo, quando o mundo é tão grande, tão fascinante, tão atractivo, tão, tão mais... " valeu a porrada que senti levar no início. beijos!
ResponderEliminar"Não mandas em mim!" ahahah! Bjos
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